
Tudo, sim, tudo foi tão rápido. Meu peito anda fechado, meu sorriso se forma sem vontade, meus olhos transbordam uma lágrima de arrependimento. Queria estar deitada nesse mesmo sofá, quase dormindo e por um momento repentino, escuto o barulho do seu carro, levantando- me instintivamente, então a porta da sala se abre, e ali está você, sim, você. Entrando em casa, dando aquele sorriso que me mata internamente, pronto pra falar: “Boa noite amor, como foi o trabalho?” Caminho na sua direção, ansiosa por mais um dos seus abraços, tendo a certeza que nunca mais encontraria um carinho tão verdadeiro, o cheiro do seu perfume entrando nas minhas narinas, misturado com o cansaço do dia, você me segurando tão forte, como se eu nunca tivesse saído de perto de ti, então fecharia os olhos, e gravaria aquele odor eternamente. Mas a porta não se abriu, e você não chegou.
Pegaria na sua mão, e o levaria para a cozinha, onde prepararia o seu café com leite, e você afirmaria com aquele ar orgulhoso, que apenas eu fazia do jeito certo, bebendo com a sua satisfação. Era o seu sorriso, o seu orgulho, os seus olhos, o barulho que faz quando gargalha, o charme do cabelo, o ar satisfeito. Era você. E enquanto eu estivesse lavando a louça, você apareceria nas minhas costas, com as mãos em minha barriga, a acariciando, afirmando com aquele cheiro de café saindo da sua boca, que serei a mãe dos seus filhos, me tonteando com suas palavras e o modo como arqueava a sobrancelha ao falar. Eu dava um sorriso meio sem jeito, e dizia que éramos muito jovens pra pensar nisso. Você me olhava sério e pensativo, e depois respirava fundo e afirmava que eu era sua, e no momento isso que importava. Mas dessa vez não foi, você não está aqui. A cozinha está vazia, os azulejos frios, e a cafeteira quer sentir o calor da tomada, pra poder ligar. Assim como eu quero o calor do seu corpo, pra poder viver.
Caminharíamos para o quarto, onde você trocaria de roupa enquanto me contava a história do maluco do seu trabalho que gastou metade do salário em um bingo e no fim não ganhou muita coisa além de uma mobília de trezentos reais. E você me contava tão animado, fazendo pausas pra me olhar fundo, sorrindo, passando a mão nos meus cabelos, dizendo com tanta firmeza como eu era linda, fazendo-me acreditar. Passo a mão nos meus cabelos, me encarando no espelho e não vejo nada além de uma pessoa normal. Olho pra cama, e lembro que a essa hora você deitava me puxando, como se fossemos duas crianças e me beijava profundamente. Dizendo o quanto me amava, o quanto estava feliz. Como eu era a mulher perfeita pra você. Lembrar disso me fez chorar. Então deito na cama, e não controlo mais as lágrimas que saem dos meus olhos. Queria dizer ao menos mais uma vez o quanto eu amo você. Queria te mostrar como isso está me matando...
A porta se abriu, um susto invadiu meu corpo e foram os teus olhos que se encontraram aos meus. Por um segundo, achei que estivesse sonhando, mas não estava. Sim, você estava ali, parado na porta. Encarando meu rosto com lágrimas.
- Desculpe-me.
- Pelo quê?
- Por ter entrado assim, hoje é sexta feira, achei que não tinha ninguém em casa. Falei que pegaria minhas roupas.
- Tudo bem.
Tentei sorrir, limpei meu rosto e saí do quarto. Sua presença me sufoca. Caminhei até o banheiro, lavei meu rosto. Escuto a sua voz.
- O que disse?
- O que houve com a gente?
- Tempo.
- Tempo?
- Sim.
- Como assim?
- O tempo nos separou. Antes era muito jovens, hoje somos adultos.
- Então por que estava chorando?
- Quem disse?
- Seu coração disse ao meu. Disse pra eu vir mais cedo, disse pra te segurar, disse pra nunca mais te soltar, pra tomar seu café, e olhar nos teus olhos.
- Por que não faz? – Ele suspirou profundamente, arqueou uma das suas sobrancelhas, como costumava fazer e disse, num timbre baixo:
- Boa noite amor, como foi o trabalho?
Então sorriu daquele jeito que me matava internamente, e me joguei nos seus braços, urgentemente. Nos encontramos em um forte abraço, o carinho mais verdadeiro que já senti e sentiria em toda minha vida. Aquela lágrima presa se soltou, e esboçou o sorriso escondido na noite de uma criança.
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